“O vazio do domingo” e a mãe de costas.

 

#alertadeespoilers

O vazio de domingo acabou de entrar no catálogo do Netflix, é um filme espanhol, do diretor Ramón Salazar.

Sinopse:

Mais de trinta anos depois de abandonar sua família, Anabel (Susi Sánchez) recebe uma visita inesperada de sua filha Chiara (Bárbara Lennie). Ela cede a seu desejo de passar dez dias em uma vila remota entre a Espanha e a França.

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-252737/

Esse é um filme com uma fotografia fantástica, em um tom cinza e melancólico na maior parte do tempo. As imagens do interior, a fazenda e um viralejo no sul da frança, próximo à divisa com a Espanha, são de encher os olhos. Além disso o enquadramento é perfeito, muito equilibrado, com a cena de importância centralizada. Só vendo pra saber. Se você já viu, me diga aqui nos comentários que impressões a fotografia te passou!

A cena inicial mostra Chiara (a filha), andando pela floresta fria, ela tropeça em algo, mas continua, até chegar em uma árvore que tem um oco enorme no tronco, como uma entrada para um mundo subterrâneo e ali ela se detém, contemplando o oco.

Cortando para a cena da mãe, Anabel caminha firme e elegante pela casa colorida e clássica. E ela também tropeça na própria roupa. Um corte de cenas que consegue instantaneamente diferenciar o mundo das duas. O calor e a cor, da floresta fria.

Chiara se infiltra como garçonete em um jantar oferecido pela mãe e consegue contato com ela. No primeiro encontro das duas, Chiara a acusa de fazê-la inexistente. O que faz total sentido, afinal a mãe foi embora quando ela tinha 8 anos e viveu uma vida como se ela não existisse.

Anabel Benueve teve duas filhas, Chiara é a mais velha, que ela deixou com o pai quando a menina tinha 8 anos. E a outra é filha do casamento atual, talvez 20 anos mais nova que Chiara. De alguma forma, Anabel parece ter abandonado as duas filhas.

Ela se ocupa em manter a elegância, enquanto a filha mais nova atrapalha seu jantar. E também, quando a mais velha aparece e pede a ela que passem 10 dias juntas. Se ela sente culpa, não fica claro, mas o filme deixa a impressão que Anabel não se culpa por nada e não é uma mulher de arrependimentos. As filhas são incômodas porque atrapalham sua rotina.

A cena em que acertam os trâmites da estadia de 10 dias de Anabel em casa de Chiara, na fazenda no sul da França, é uma cena muito doída de assistir. Anabel fica de costas, enquanto seu advogado e seu marido tratam com Chiara. Tentam lhe subornar, lhe oferecem dinheiro, tentam descobrir o que Chiara quer com a mãe depois de tanto tempo. Em todo esse momento, Chiara com o rosto cheio de dor e indignação busca o olhar da mãe, como se esperasse que ela se virasse e dissesse alguma coisa, que a resgatasse daquela cena formal e ridícula, que se fizesse mãe dela. Mas Anabel se mantém de costas, olhando pela janela, enquanto Chiara assina um contrato abrindo mão de qualquer parentesco com ela.

Chiara sofre muito, tem uma postura depressiva e melancólica, não sabemos ao certo o que ela almeja com a presença da mãe em sua casa por 10 dias.

Elas vão, Chiara dirige, diz que seu pai está morto.

Ela é reativa, ataca Anabel verbalmente, embora tenha conseguido o que desejava, Anabel está ali, na casa com ela, as duas sozinhas.

Mas o que fica claro, é que nenhuma das duas sabe demonstrar carinho, nem mesmo quando desejam fazer isso. Chiara acusa a mãe de muitas coisas: de abandono, de ser rica, esnobe. A humilha, como se quisesse fazê-la pedir perdão, mas através de uma imposição, de culpa.

Chiara age como quem está a beira da morte, nos dá a impressão de que nada mais importa, faz loucuras e manipula as situações para ter um pouco do colo da mãe, como se construísse um teatro. Busca sua cachorra que estava com o vizinho, se joga na lama com ela e chega para dizer à mãe, que resgatou a cachorra de um poço, que desceu em um poço para resgatá-la. Se faz a heroína. Mente que o pai está morto, como se quisesse preservar esse momento somente para ela e a mãe. Como se não importasse que a mãe descobrisse a verdade dez dias depois, pois tudo que importa acontecerá dentro  dos 10 dias.

Chiara revela à mãe depois de alguns dias, que realmente está à beira da morte, fica confirmado então, que ela arriscou tudo por esses 10 dias, como se quisesse dentro dessa cápsula consertar o que mais lhe dói. Aquilo do qual ela nunca se recuperou: ausência de mãe. Revela que levou uma vida desregrada, com muitas drogas, muito cigarro, que não estudou, que não foi capaz de se relacionar. Tudo que teve, ela colocou ali no buraco, aquele do oco da árvore, a ausência de mãe, da qual ninguém pode se recuperar. O sentimento de abandono está no cerne da relação das duas e foi forte o suficiente para destruir Chiara, tudo que ela queria era não ter sido abandonada, mas há como consertar isso?

Quando Anabel finalmente pede perdão, Chiara diz que não importa, que não guarda rancor. Então o que ela quer? Anabel já se impacienta por saber por que está ali. As duas relembram o dia da partida de Anabel, um domingo a tarde. O domingo tão vazio que Chiara vem vivendo, incapaz de conhecer um amanhã.

Chiara então revela que quer morrer, ela sofre e sente dor. Dá a mãe a tarefa de afogá-la no rio. O afago de mãe na hora da morte compensaria por uma vida de abandono, isso parece ser o que Chiara pensa. A tarefa de lhe tirar a vida só poderia ser uma tarefa de mãe, algo que não poderia ser feito por outrem.

Com brilhantismo e delicadeza o filme perpassa a relação de mulheres muito fortes. Traz algo da relação mãe e filha que nos agarra o coração. A atuação das duas é fantástica e o filme é silencioso, com muito mais dito nos olhares. O tempo todo nos perguntamos, onde está o amor? Onde está a culpa? Onde está o preto no branco?

Não há preto no branco, mas há muita sororidade, que claro, não vem fácil, ambas lutam e se rendem.

E você? Qual a impressão que você teve do filme? Concorda com a visão dessa resenha?

 

 

 

 

 

 

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